sábado, 13 de maio de 2017

UM HOMEM APAIXONADO PELO CINEMA E FILMES

FOLHA DE LONDRINA

'Eu me vi em Cinema Paradiso'

Administrador do Cine Teatro Padre José Zanelli, em Ibiporã, elege o longa italiano como o filme de sua vida. Uma vida inteira dedicada ao cinema


Gina Mardones
Antônio Moya Cuenca trabalha em cinema há 28 anos e tem história de sobra para contar: "Muitas vezes o filme não chegava a tempo, o que provocava o protesto das pessoas"

Trabalhando por 28 anos em um cinema, Antônio Moya Cuenca já perdeu as contas de quantos filmes assistiu. Ele é administrador do Cine Teatro Padre José Zanelli, em Ibiporã, desde a inauguração e é responsável, entre outras coisas, pela seleção dos filmes e contato com as distribuidoras, o que o colocou em situações difíceis algumas vezes. 
"Muitas vezes o filme não chegava a tempo, o que provocava o protesto das pessoas. Quando exibimos Batman, em 1989, havia muita expectativa, era um filme do Tim Burton. Quando conversei com a distribuidora me disseram que o filme chegaria a tempo. Eu sempre ficava preocupado porque depois que os rolos chegavam eu ainda tinha que montar o filme, levava um certo tempo. E no dia o tempo foi passando e o filme não chegava. Liguei na distribuidora e me disseram que estava vindo por um ônibus, porém, o motorista esqueceu de descarregar o filme e o ônibus seguiu até Ourinhos. Tivemos que esperar chegar lá e colocarem em um ônibus que voltava para cá. As pessoas foram chegando e eu esperando o ônibus, sem saber se ia dar tempo. Para resumir a história, o ônibus veio parar na porta do cinema, com os passageiros e tudo, todo mundo ajudando a descarregar os rolos. No fim deu tudo certo, o filme foi exibido com atraso, mas foi", relembra. 


Traje de gala 
Moya se recorda das crianças brincando na porta do cinema e trocando gibis, coisas que atualmente já não se vê mais. O cinema de Ibiporã é hoje um dos últimos de avenida, como são chamadas as salas que ficam fora dos shoppings. Foi lá que muitos casais se conheceram e começaram a namorar, esperando as luzes se apagarem para poderem pegar na mão. "Isso é muito legal do cinema, ser esse ponto de encontro. As pessoas se telefonam, marcam de se encontrar aqui, ficam esperando no saguão, conversando. Muitos casais se formaram, se casaram. Em Londrina, me lembro das pessoas irem ao Cine Augustus de terno, mas todos se misturavam. Quando exibiram Doutor Givago, eu lembro de ver grandes personalidades e também operários na plateia." 
Entre os filmes com maior bilheteria em Ibiporã, ele conta que O Advogado do Diabo foi um sucesso absoluto, ficando seis semanas em cartaz, duas a mais do que o programado. O motivo foi a exibição do megasucesso Titanic na mesma época. Com a priorização do drama do navio, muitas salas deixaram de exibir o filme com Al Pacino em Londrina e os expectadores migraram para a cidade vizinha. "Uma noite chegou uma van aqui só de mulheres, para assistir ao filme. Nunca tinha visto isso", diz. 



Filas quilométricas 
Outro filme de grande sucesso entre o público, segundo ele, foi O Rei Leão, com sessões lotadas em todas as três semanas, assim como Dança com Lobos. "Dirty Dancing também foi uma loucura, as filas eram quilométricas! Sociedade dos Poetas Mortos, Robin Hood, Uma Linda Mulher e Os Intocáveis também foram filmes marcantes. Mas meu filme preferido sem dúvida foi Cinema Paradiso (filme italiano de 1988, que conta a história de um menino que se encanta pelo cinema e inicia uma grande amizade com o projecionista de sua pequena cidade). Eu me vi retratado ali, pelo meio do filme já estava chorando. É o filme mais importante para mim!", exclama. 
Moya conta que os filmes vinham em diversos rolos, que precisavam ser montados antes da exibição. Entretanto, ele também só assistia ao filme junto com os expectadores, o que algumas vezes resultou em situações curiosas. "Uma vez o filme veio com dois rolos trocados, o 3 era na verdade o rolo 4 e vice-versa. Porém, durante a montagem não conseguimos perceber isso, então montei conforme a indicação das etiquetas. Na hora da exibição, de repente o personagem morreu e tempos depois, apareceu vivo novamente, como se nada tivesse acontecido. Foi aí que percebi que os rolos estavam trocados. Apesar disso, ninguém reclamou, acho que as pessoas não entenderam, acharam que era alguma coisa do diretor. Depois consertei o erro e ficou tudo bem para a próxima sessão", conta rindo. Em outra ocasião, um dos rolos pertencia a um outro filme, que já havia sido exibido. Dessa vez, porém, ele conseguiu perceber durante a montagem. 



Érika Gonçalves
Reportagem Local