quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O ÚLTIMO DISCURSO DE UMA ÁRVORE

Pode ser que meu discurso seja em vão, assim como foi o famoso “O Último Discurso” de Chaplin em “O Grande Ditador” de 1940. Mas, já que vocês têm a data de 21 de setembro como o “Dia da Árvore”, vou tentar conquistar vocês. Por mais insensíveis que vocês humanos tantas vezes sejam, também houve, ao longo da história, momentos de adaptação à natureza, de paz. Tá certo que a maioria de vocês hoje mora em cidades e que na natureza selvagem as coisas não são tão pacíficas. Um depende do outro, existem sacrifícios, mas há limites bem claros na natureza e com isso um equilíbrio que mantém a ordem. Com a falta de natureza, vocês humanos perderam os limites e a palavra “ordem” só parece ser mais uma de suas muitas mentiras. Vocês até reconhecem que a “mentira tem pernas curtas”, inventam a ciência que justifica tudo, usam uma tal de “democracia” para legitimar o mando de poucos e se orgulham pelo mundo conectado, informado. 
Será que, como humilde árvore, já condenada pelo progresso, posso ser ouvida? Por mais que minha linguagem seja outra, tenho voz! Minhas manifestações são milhares! Tenho expressões conhecidas como a sombra das folhas, a transformação de energia solar em açúcares, o cheiro e enfeite das flores, alimento e proteção aos animais que restam. E tem o meu universo secreto! Sou um ser social, preciso de minhas colegas árvores e dos bichos que espalham minhas sementes. Minhas raízes invisíveis vão longe no chão fofo da floresta e, nos campos rurais compactados e solos urbanos impermeabilizados, ficam mirradas e me dão pouca estabilidade. A agricultura e a cidade tiraram meu vital micro clima. Sou muito lenta e as mudanças climáticas bruscas são insuportáveis para mim. Fico fraca, doente e indefesa contra inimigos naturais. Vocês já repararam quantas de minhas colegas, como os pés de citros e manga, estão morrendo? Vocês parecem tranqüilos, pois sempre inventam uma nova tecnologia. Até mesmo à falta da água, líquido essencial que em outros tempos transferíamos lentamente ao solo, vocês dão pouca atenção. Que curta visão! Os poços profundos que vocês estão furando e os rios cada vez mais longínquos que vocês estão explorando, sem a nossa presença, secam. Somente nós árvores conseguimos fazer uma eficiente recarga dos lençóis freáticos! As frágeis “matas ciliares” de vocês parecem meros enfeites dos rios pelados e vermelhos por causa das enxurradas. Florestas nos topos, nos espigões, funcionando como “lavouras d’água” parecem absurdas para a visão limitada de vocês. Árvore, para entrar na lógica industrial de vocês, tem que ser tudo igual! Vocês ignoram a incrível força da nossa diversidade, do nosso insubstituível poder de resfriar e filtrar o ar, de proteger vocês dos perigosos raios solares, de garantir água nos solos. Não há indústria capaz de fazer tudo isto! Restaurar a nossa presença em nada prejudicaria a sua produção de comida e de abrigo, pelo contrário, melhoraria! A cadeia produtiva florestal seria formidável para resolver a crise de desemprego e dos problemas sociais de vocês. Imaginem quantos empregos saudáveis poderiam ser gerados! Desde o inventário das matas que ainda existem, da coleta de sementes, do trabalho no viveiro, do plantio e cuidado, da coleta e beneficiamento de produtos madeiráveis e não madeiráveis até ao atendimento do lazer e turismo que vocês tanto curtem! Parem com os seus discursos vazios! Tenham coragem de me ouvir! Assim como vocês, sou parte do milagre da vida, da força divina que a tudo inventou. Tenham fé e transformem o simbólico “Dia da Árvore” num concreto e duradouro tratado de paz entre os seres da Terra!